1.8.15

INTOLERÂNCIA, INTOLERANCE, INTOLÉRANCE, INTOLLERANZZA, INTOLERANZ...

Independentemente do idioma que se use, dá-se o nome de intolerância à atitude mental caracterizada pela falta de habilidade, ou vontade, de reconhecer e respeitar diferenças de crenças e opiniões, à falta de disposição para aceitar pontos-de-vista diferentes dos próprios.


Você é tolerante? Leia e medite.

http://lounge.obviousmag.org/trocando_ideias/2014/04/intolerancia-intolerance-intolerance-intolleranzza-intoleranz.html

17.1.15

Dizer é fácil. Compreender ou fazer-se entender, nem tanto

Contextualizar o que se diz, e observar o contexto em que as palavras são usadas pelos outros, é de grande ajuda na compreensão dos enunciados. No entanto, má-fé e ignorância costumam ser detonadores de diversos equívocos na comunicação humana.



Durante os trinta e dois anos em que lecionei Língua Portuguesa a jovens e adultos, procurei fazê-los perceber o quanto a Língua é importante como instrumento de interação social e de apreensão do mundo. Provavelmente por essa razão, venho-me sentindo incomodada com o “fenômeno de (in) comunicação” que. vem ocorrendo com frequência maior do que seria desejável.

Uma das fontes de comprovação de tal fato é a leitura de comentários nas postagens das redes sociais, se nos dermos ao trabalho de lê-los: A escreve uma opinião, B concorda, (mas não completamente) e C discorda totalmente. Até aí, nada de mais. Pessoas podem ter visões e opiniões diferentes sobre qualquer coisa, não é? A famosa liberdade de pensamento, que ninguém questiona. Pelo menos, não eu. Agora, o que pensar, quando, ao analisarmos cuidadosamente os comentários de A, B e C, percebemos, não sem espanto, que os três no fundo estão dizendo a mesma coisa? Discordam, concordando?




O que falta afinal? Instrução? Em alguns casos, isso é notório na própria forma de expressão do indivíduo, Não me espanto mais com os “encomodo”, “conserteza”, e assemelhados, logo, com certeza, não é o meu maior motivo de aflição. Sua origem está exatamente em perceber indivíduos que mostram, apesar do nível de instrução, dificuldade de interpretar, em alguns momentos, de forma adequada o que leem, ou de expressarem o que querem dizer.
Por outro lado, mais do que mal estar, surge em mim uma verdadeira indignação diante de discursos mal intencionados que deturpam, sem o menor pudor, ou decência, o que publicam ou repassam. Muito triste! Muito perigoso!
Diz S.I. Hayakawa em seu livro Linguagem no pensamento e na ação: “Na melhor das hipóteses, é uma prática estúpida, em qualquer ato de interpretação, ignorar-se os contextos.”
Em se tratando de comunicação, poderemos dizer que contexto é a situação verbal, não verbal e física que nos permite expressar/ interpretar adequadamente o pensamento. Quando ignoro o contexto e me atenho às palavras, bloqueio o entendimento real.


Pois bem, que importância terá esse conceito para nossa vida diária e em que pode nos interessar tal matéria? Desde que usem o mesmo idioma, não se comunicam todas as pessoas com clareza e precisão? E é aí que começa o engano. Não basta haver troca de palavras para que se estabeleça uma comunicação eficaz.


Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, em O livro do desassossego”, escreveu: "Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Mais ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido que havia de ser o do texto; mas sempre fica uma dúvida, e os sentidos possíveis são muitos.
A nosso ver, entre tantas outras, duas causas importantes levam os indivíduos a não prestar atenção aos contextos em que as palavras são usadas, cuja consequência costuma ser a confusão e mesmo o bloqueio nas comunicações:


  

_ Má-fé, do latim: mala fides, conceito associado à ideia de fraude, decepção ou intenção dolosa. e
· _ Desconhecimento dos processos comunicativos específicos
 No primeiro caso, observa-se uma prática tendenciosa, viciosa, cuja meta é desvirtuar, desmerecer, ridicularizar intencionalmente o objeto a ser tratado, pessoa ou situação.
Exemplo bastante simples, até aparentemente óbvio, seriam as manchetes de jornais sensacionalistas formadas por algumas poucas palavras de personalidades de destaque social, retiradas de seu contexto. Dessa forma, constroem-se, ou leva-se o leitor a construir, relatos totalmente deformados.
Digamos, por hipótese, que determinado indivíduo socialmente notável (político, artista, esportista) afirme em uma entrevista que sua total dedicação ao que faz seja um verdadeiro vício: “Meu trabalho é minha cocaína. Sou totalmente viciado.” Apoiando-se nessa declaração, um tabloide publica: FULANO DE TAL ASSUME SER VICIADO EM COCAÍNA. Da forma como isso foi apresentado, ignorando propositalmente o contexto, manipula-se a opinião pública para denegrir reputações com o intuito premeditado de desacreditar o entrevistado.


Mais grave é a atitude de muitas pessoas que reagem a qualquer desmentido posterior, afirmando: “Não importa o que ele disse depois, pra mim basta saber que ele é um viciado.” E sempre haverá quem defenda essa atitude porque “afinal de contas ele disse isso, não disse”? Se não disse, acho bem provável que possa ser verdade.” E é aí que mora o maior perigo, pois não estamos diante de uma deslavada mentira, mas de uma realidade amputada, deformada. Se a pessoa estiver ciente de que pode haver uma evidência adicional, mas propositalmente não verifica, e depois age como se a posição fosse confirmada, esta é uma desonestidade intelectual.
O resultado é frequentemente ouvirmos nos discursos alheios aquilo que eles nunca tiveram a intenção de dizer e reagir em função dessa falsa realidade, nos comportando tolamente, apoiando a má fé alheia.
No segundo caso, precisamos estar cientes de que as palavras não possuem um único significado, que este pode variar mesmo em situações similares. Portanto, no emprego de qualquer palavra há que examinar o contexto particular e o geral, para conhecer seu significado dentro daquele contexto.
Examinemos, por exemplo, a seguinte situação: “Uma amiga portuguesa, tendo mudado há pouco tempo para o nordeste brasileiro, dirigiu-se à empregada:
“Ó rapariga, à tarde, faça um bolo para o lanche”.
Totalmente indignada, a empregada retruca: “Eu nunca dei motivo pra senhora me ofender, não vou ficar aqui ouvindo desaforo!”
“Como é isso, criatura, que estás a pensar?” _espanta-se a patroa.
A chorar, responde a moça: “Eu posso ser pobre, mas sou honesta e vivo do meu trabalho. Nunca fui prostituta.”
“Mas eu nunca pensei numa coisa assim, porque estás a dizer isso?”
“A senhora me chamou de rapariga. Eu ouvi.”
Foi necessária muita habilidade para a patroa não perder a empregada e, sobretudo, teve que explicar-lhe que, em Portugal, (seu contexto social) rapariga significava jovem, moça e que não havia qualquer ofensa nisso.
Como se vê, a extensão dos contextos (verbais, sociais, históricos) a serem examinados pode ocasionar tais ruídos comunicativos devido à grande amplitude.


Ignorar esses fatos, aqui resumidíssimos, e outros tantos que deixaremos para outra ocasião, é um caminho para os mais diferentes transtornos de comunicação que geram dificuldades não só no trato social, como também na nossa própria compreensão dos outros e do mundo.

Para encerrar esta breve apreciação, consideremos que conceitos abstratos como liberdade, verdade, justiça, coragem, decência e outros de igual extensão de significado são constantemente provocadores de conflito. Assim, se estivermos convictos de que nenhuma palavra significa duas vezes exatamente a mesma coisa e que não significa exatamente a mesma coisa para duas diferentes pessoas, passaremos a examinar com mais cuidadosa os contextos em que são empregadas para podermos compreender o que dizem ou escrevem os nossos semelhantes.

Rosa Maria Ferrão