6.7.14

Campo de batalha

A vida, pelos inúmeros obstáculos que oferece, pelos desafios constantes que temos de enfrentar, pelas dificuldades e desafetos que temos que vencer, se assemelha a um campo de batalha em que o inimigo parece, às vezes, muito superior em força, estratégia e número.
A cada batalha vencida, muitas vezes, corresponde uma derrota vergonhosa. A cada inimigo derrotado, correspondem outros tantos a vencer. E a luta parece não ter fim.

É nesse momento que surge o mais poderoso inimigo, aquele que nos faz derrotados, antes mesmo de começarmos a lutar  ...o conformismo.

Transformando-nos em seres sem vontades, sem expectativas, sem esperança, esse inimigo feroz nos submete e tira-nos o ânimo de viver. Isso, porém, só acontece, quando consideramos um único significado do verbo conformar que pode atuar como verbo transitivo, ou pronominal.
O dicionário nos aponta as seguintes opções

  • v.t. -Formar, dispor, configurar. Pôr de acordo com: conformar o procedimento às palavras.
  • V.pr. - Acomodar-se, resignar-se, submeter-se: conformar-se com as circunstâncias.

 Ora, já que conformar também é formar, dispor, cabe a cada um dar forma à sua própria vida, e dispor dela como lhe aprouver, contanto que não esteja isolado, por isso, precisará formar com...
A vida não é realmente uma brincadeira e as dificuldades, embora possam ter diferentes origens, são comuns a todos os seres que habitam o planeta.
O que não se pode fazer é desistir da luta, desanimar, enfraquecer-se...
Nossa maior força está na ação, no enfrentamento das dificuldades, com confiança e bom ânimo. Agindo sempre de forma correta, apesar das incorreções do mundo, acabaremos por alcançar a vitória.


Se cremos numa justiça superior à dos homens - e ela é real - temos que acreditar que, se fizermos a parte que nos cabe, venceremos as batalhas que se apresentarem.
Não podemos nos responsabilizar por, nem querer controlar, ações alheias, mas sem dúvida podemos e devemos fazê-lo com nossas próprias ações.
Dessa forma, não dê trégua ao inimigo. Não se resigne, não se renda, não se entregue. Lute para vencer e vença.

Rosa Maria Ferrão

12.1.14

Para quem tem mais de 65 anos


1 - Tome posse da maturidade. A longevidade é uma bênção! Comemore!Ser maduro é um privilégio; é a última etapa da sua vida e se você acha que não soube viver as outras, não perca tempo, viva muito bem esta. Não fique falando toda hora: “estou velho”. Velho é coisa enguiçada. “Idade não é pretexto para ninguém ficar velho”. Engane a você mesmo sobre a sua idade, porque os psicólogos dizem que se vive de acordo com a idade declarada!

2 - Perdoe a você antes de perdoar os outros. Se você falhou, pediu perdão? Deus já o perdoou e não se lembra mais. Mas você fica remoendo o passado... Não se importe com o julgamento dos outros. Só há dois times no Universo: o do Salvador e o do acusador. Neste último você sabe quem é goleiro. Continue no time do Salvador.

3 - Viva com inteligência todo o seu tempo. Viva a sua vida, não a do seu marido, dos filhos, dos netos, dos parentes, dos vizinhos... Nem viva só pra eles, viva pra você também. Isto se chama amor próprio, aquilo que você sacrificou sempre! Nunca viva em função dos outros. Faça o seu projeto de vida!

4 - Coma muito menos; durma o suficiente; não fique o dia inteiro, dormindo, dando desculpa de velhice. Tenha disciplina. Fale com muita sabedoria. Discipline sua voz: nem metálica; nem baixinha; seja agradável!

5 - Poupe seus familiares e amigos das memórias do passado. Valorize o que foi bom. Experiências caóticas, traumas, fobias, neuroses, devem ser tratadas com o psicoterapeuta. Não transforme poltrona em divã, ouvido em descarga.

6 - Não aborreça ninguém com o relatório das suas viagens. Elas são interessantes só pra quem viaja. Ninguém aguenta ouvir os relatórios e ver fotografias horas e horas. Comente apenas o destino e a duração da viagem, se alguém perguntar. Aprenda a fazer uma síntese de tudo, a não ser que seus amigos peçam mais detalhes. Se alguém perguntar mais alguma coisa, seja breve.

7 - Escolha bons médicos. Não se automedique. Não há nada mais irritante do que um idoso metido a receitar remédio pra tudo o que o outro sente. Faça uma faxina na sua farmácia doméstica.

8 - Não arrisque cirurgias plásticas rejuvenescedoras. Elas têm prazo curto de duração. A chance de você ficar mais feio é altíssima e a de ficar mais jovem é fugaz. Faça exercícios faciais. Socorra os músculos da sua face. Tome no mínimo 8 copos de água por dia e o sol da manhã é indispensável. O crime não compensa, mas o creme compensa!

9 - Use seu dinheiro com critério. Gaste em coisas importantes e evite economizar tanto com você. Tudo o que se economizar com você será para quem? No dia em que você morrer, vai ser uma feira de Caruaru na sua casa. Vão carregar tudo. Não darão valor a nada daquilo que você valorizou tanto: enfeites, penduricalhos, livros antigos, roupas usadas, bijuterias cafonas, ouro velho... prataria preta, troféus encardidos, placas de homenagens. Por que não doar as roupas, abrir um brechó ou vender todas as suas bugigangas, apurar um bom dinheiro e viajar?

10 - A maturidade não lhe dá o direito de ser mal educado. Nada de encher o prato na casa dos outros ou no self-service (com os outros pagando), falar de boca cheia, ou palitar os dentes na mesa de refeições (insuportável).

11 - Só masque chiclete sem testemunhas. Não corra o risco de acharem que você já está ruminando ou falando sozinha.

12 - Aposentadoria não significa ociosidade. Você deve arranjar alguma ocupação interessante e que lhe dê prazer. Trabalhar traz muitas vantagens para a saúde mental, além do dinheiro extra para gastar, também com você.

13 - Cuidado com a nostalgia e o otimismo. Pessoas amargas e tristes são chatíssimas, as alegres demais, também. Elogie os amigos, não fique exigindo explicações de tudo. Amigo é amigo.

14 - Leia. Ainda há tempo para gostar de aprender. A maturidade pode lhe trazer sabedoria. Coloque-se no grupo sempre pronto para aprender. Não se apresente em lugar nenhum dizendo: sou muito experiente!

15 - Não acredite nas pessoas que dizem que não tem nada demais o idoso usar roupas de jovens, cuidado. Vista-se bem, mas com discrição. Cuidado com a maquiagem, se for pesada, você vai ficar horrível.

16 - Seja avó do seus netos, não a mãe nem a babá. Por isso nem pense em educá-los ou comprometer todo o seu tempo com as tarefas chatas de ir buscar na escola, levar a festinhas, natação, inglês, vôlei... Só nas emergências. Cuidado com aquela disponibilidade que torna os outros irresponsáveis.

17 - Se alguém perguntar como vão seus netos, não precisa contar tuuuuuuuudo! Evite discorrer sobre a beleza rara e a inteligência excepcional deles. Cuidado com a idolatria de neto e o abandono dos filhos casados...

18 - Não seja uma sogra chata. Nunca peça relatório de nada. Seu filho tem a família dele.Você agora é parente! Nunca, nunca, nunca mesmo, visite seus filhos sem que sejaconvidado. Se o filho ligar pra você, não diga: ah! lembrou finalmente da sua mãe? É melhor dizer: Deus o abençoe meu filho.

19 - Cuidado em atender ao telefone: se a pessoa perguntar como você vai e você responder “estou levando a vida como Deus quer”; “a vida é dura”; “estou preparando a partida”; “estou vencendo a dureza”; você vai ver que as ligações dos amigos e dos parentes vão rarear, cada vez mais.

20 - A maturidade é o auge da vida, porque você tem idade, juízo, experiência, tempo e capacidade para se relacionar melhor com as pessoas. Então delete do seu computador mental o vírus da inveja, do orgulho, da vaidade, promiscuidades, cobranças, coisas pequenas e frustrantes para tomar posse de tudo o que você sempre sonhou: a felicidade. 
 
Ivone Boechat

Biografia:
Natural do Estado do Rio; Membro da Academia Duquecaxiense de Letras e Artes de Duque de Caxias-RJ; Autora de 16 livros, Consultora em Educação.


Gil Elvgren, um mestre do retrato feminino

Gil Elvgren (15 de março de 1914  a 29 de fevereiro de 1980), nascido Gillette Elvgren, foi um pintor americano de pin-ups, publicidade e ilustrações , considerado um dos mais importantes do século XX nessas áreas. Esteve em atividade de 1930 a 1970.  Foi um mestre em retratar o feminino, mas não se limitou a indústria pin-up do calendário.








As lindas garotas de Alberto Vargas

Alberto Vargas nasceu na cidade de Arequipa, no Peru, em 9 de fevereiro de 1896. Ninguém poderia ter previsto que um humilde filho de uma remota cidade andina criaria um legado que tanto forma como reflete os ideais de beleza americano no século 20. Seus retratos, pinturas sutilmente detalhadas e graciosas, ajudaram a definir a imagem icônica das pin-up girls, consolidando seu nome no mundo da arte, de Hollywood e da cultura pop, e continuando a influenciar as gerações posteriores de artistas.






Pin ups: voyeurismo e identificação


É inegável que pin up girls fizeram e continuam fazendo enorme sucesso. Você alguma vez já se perguntou por que isso acontece? Que universo psicológico elas adentram para captar atenção tanto de homens quanto de mulheres? Eu me fiz essa pergunta e vou tentar respondê-la. Isso não significa elaborar um profundo tratado sobre o assunto, mas tentar saciar a minha própria curiosidade. E quem sabe também a sua?

O termo pin-up pode ser utilizado de forma genérica para nomear a fotos, desenhos, pinturas e outras ilustrações, cujas características principais são a beleza e a sensualidade das mulheres retratadas.


Essa nomeação foi documentada pela primeira vez em1941; mas desde a década de 1890 podem-se encontrar exemplos desse fenômeno: os postais que eram guardados a sete chaves dos olhos das moças respeitáveis pelos rapazes que os colecionavam. Tais ilustrações apareciam frequentemente também emcalendários, que eram produzidos para serem pendurados (em inglês, pin-up).



Posteriormente, na Paris do fim do século XIX, com ilustrações de Alphonso Mucha e Jules Cheret surgiram os primeiros pôsteresde pin-up girls em poses sensuais e, a partir de então, começaram a ser produzidos em massa, por diferentes artistas, alguns inclusive alcançando fama internacional.





Para tentar responder a questão que me propus é necessário que analisemos primeiramente dois conceitos:
Voyeurismo é a prática em que o indivíduo obtém prazer sexual na observação de pessoas. Essas pessoas podem estar envolvidas em atos sexuais,nuas, em roupa interior ou com qualquer vestuário que seja apelativo para o indivíduo em questão e se manifesta de várias formas, embora a característica principal seja o fato de o indivíduo não interagir com o objeto de desejo.
Identificação é, na vertente que vamos utilizar, um processo psicológico fundamental no desenvolvimento da personalidade, pelo qual um indivíduo adota características que pertencem a outro indivíduo tomado como modelo.

Coloco as definições porque me parece que ambos estão, de certa forma, envolvidos nesse enorme sucesso das pin up girls. Explico:

Há na simples visão dessas mulheres idealizadas em formas fisicamente perfeitas, na perfeição de traços fisionômicos (considerados sob o aspecto de beleza adequado a cada época, é bom que se ressalte) que provocam o tal prazer sensual ao serem observadas. Há a provocação do desejo nessa visão, mas o indivíduo não interage com o objeto do desejo.
Esse traço não pode ser confundido com o uso de pornografia. Não aqui. Não é esse o paralelo que procuro estabelecer. As pin-up não eram as mulheres de verdade, porém eram criadas para atiçar a fantasia masculina, por essa razão eram figuras idealizadas, não vulgares. Provocativas, insinuantes, dissimuladas, misturavam sensualidade e inocência. Muitas apareciam vestidas, outras deixavam à mostra as pernas, ou partes do corpo em transparências, ou grandes decotes, com expressões ingênuas, surpresas ou assustadas que levaram uma geração de homens à loucura. Mostravam sem mostrar.  E ainda que aparecessem completamente nuas, os rostos exibiam sorrisos alegres, marotos não lascivos e, muitas delas um olhar distante e tranquilo.














A sociedade costuma estimular o destaque, o seja diferente, o seja original. Em decorrência disso aparece um certo medo de ser comum, igual, quando na verdade nada há de comum e igual entre duas pessoas, cada uma delas já é única. E nisso reside a descoberta da identidade: tornar-se o que se é. Em contrapartida, o desenvolvimento da personalidade apoia-se nos outros _pai, mãe, professores, amigos, personalidades de destaque social _cujas características admiramos e tomamos como modelo. E é aí que as garotas do calendário entram: lindas, perfeitas, felizes, sensuais. Modelos acabados das características que pretendemos incorporar. E com elas nos identificamos.
É claro que pin ups não são a realidade e as nossas ilusões passam, não a realidade. Com o tempo percebe-se isto: é inatingível uma realidade de sonho, de puro desejo. Mas aquela sensação permanece e, ao ver uma pin up, a pergunta alegre ecoa em nós: Eu realmente nunca fui assim, mas que mal fez sonhar?

2.11.13

O mundo mágico de Michael Cheval

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10.8.13

O dia em que seu Gesu dormiu mal


G.G. rolou na cama a noite inteira. Teve pesadelos, calafrios, ondas de calor, dor de cabeça, pontadas no estômago, câimbras nas pernas. Tremeu, suou, gemeu. A pobre de dona Almerinda fez todo o possível para aliviar as agonias do marido, mas não houve chá, remédio, nem carinho que desse jeito. Aflita, corria do quarto para a cozinha e de volta pro quarto. Lá pelas tantas, desistiu. Foi para o sofá da sala e caiu desmaiada de cansaço.
            G.G, como era de se esperar, acordou com a cachorra. Gritou com a empregada por causa do café, fraco, fedorento, insuportável. O filho mais velho ouviu um discurso de hora e meia, como resposta ao seu bom-dia: já estava mais do que na hora de começar a trabalhar, não sou besta de carga de filho boa-vida que só pensa em farra e mulher, na tua idade eu já era dono de fábrica de calçados, comecei meninote, varrendo chão, servindo café... depois, vendedor de sapatos. Não tive essa moleza não, meu pai me trazia na rédea curta... A filha entrou na sala, ouviu, deu meia volta, mas não escapou. Pensa que eu não vi a que horas a senhorita chegou com aquele vagabundo metido a artista, pensa que eu estou cego? Ou me arruma um homem decente, ou te boto num convento, que é lugar de mulher cabeça-de–vento tomar jeito.
            Dona Almerinda achou melhor nem aparecer. Depois de trinta anos de casamento, já conhecia de cor aquelas tempestades. Sempre que os negócios não iam lá muito bem, eram raios e trovões por toda parte, depois tudo se ajeitava e o sol brilhava novamente. Foi para o quarto e voltou a dormir.
            No escritório, onde chegou antes de todos, G.G sentou-se à mesa de trabalho. Estava coberta de papéis. Começou a folheá-los, lendo um a um atentamente. A cada folha virada, sua respiração se acelerava. Em pouco tempo, bufava. Foi quando dona Arlete entrou, trazendo um luminoso sorriso colado à cara.
            —Bom dia, seu Gesu, madrugou hoje, hem? Que foi, deu formiga na sua cama?
            O olhar furibundo de G.G fez dona Arlete engolir em seco.
            —Desculpe, seu Gesu, eu não pretendia...
            —Olha aqui, dona Arlete, eu não lhe dou intimidades para vir à minha sala com gracinhas idiotas. A senhora é paga, e excessivamente bem paga, para fazer seu serviço, que, aliás, pelo que pude ver até agora, está uma bela porcaria!
            —Mas, seu Gesu, eu fiz tudo como o senhor mandou! Separei o balanço do semestre, bati todas as cartas, coloquei as faturas no arquivo... até a sua mesa limpei com óleo de peroba, que, aliás, nem é de minha obrigação fazer, mas fiz por gosto e...
            —Por acaso a senhora não está satisfeita? Acha que com as suas qualificações vai arrumar uma moleza igual a esta e ainda por cima ser paga pra fazer as trapalhadas que tem feito? Se acha, pode ir tratando de procurar outro lugar pra se encostar. E agora dê o fora que eu tenho mais o que fazer.
            Dona Arlete estava lívida, muda de espanto. Os já enormes olhos de ovelha se arregalaram, tentando segurar as lágrimas que boiavam, quase transbordando. Muitas vezes tivera que agüentar o mau humor do patrão, mas ele jamais lhe falara daquela forma grosseira. Saiu rapidamente, levando a porta atrás de si.
            Do outro lado estavam alguns funcionários tomando um cafezinho, batendo um papinho, remanchando por ali naquela de dar um tempo pra preguiça matinal ir embora. Aquele era um hábito de anos na firma e nunca incomodara ninguém. Eram ótimos trabalhadores, funcionários responsáveis e dedicados. O próprio Gumercindo, chofer do patrão, que, além da pouca idade, também estava há menos tempo que os outros a serviço da empresa, levava a sério suas obrigações.
            Quando o estrondo da porta cortou o zunzum das conversas, fez-se um imediato silêncio.Alguns pares de olhos fixaram-se na face pálida de dona Arlete que, de imediato, começou a esbravejar:
            —O que é que está havendo aqui? Pensam que estão na casa da sogra? Pilhas de serviço em cima das mesas e vocês aí de trololó, fazendo cera, enquanto o patrão paga as contas! Muito cômodo!
            —Ô dona Arlete, que qué isso? A gente só tá batendo um papinho, fazendo uma social, enquanto o povo toma um cafezinho esperto que eu fiz, mas já já a gente pega no batente, não precisa ficar nervosa, não. Eu, hein!?
            —Eu, hein? Eu, hein? Que história é essa de eu hein? Preste atenção, seu Honório, não pense que pode ir assim me respondendo não. Que confiança é essa? Mando colocá-lo no olho da rua, tá sabendo? Onde é que já se viu esse abuso? E vamos todos trabalhando, não tem ninguém distribuindo doce aqui não!
            Retirou-se batendo os saltos dos sapatos, deixando todos de boca aberta, sem entender coisa alguma. O Gumercindo, jovem que era e cheio de ideais de justiça, resolveu que aquilo não ia ficar assim. Onde é que já se viu aquela mulherzinha metida a besta, só por ser secretária do patrão, achar que podia ir assim destratando um senhor de idade, ainda mais sendo gentil e bem educado feito o seu Honório? Foi atrás.
            —Ô dona Arlete, que história foi aquela com o seu Honório? Não é direito falar com ele daquele jeito e...
            —Olha aqui, seu moleque, quem você pensa que é pra vir chamar minha atenção? Ponha-se daqui pra fora e não me aborreça, ou vai pra rua junto com ele. Só me faltava essa agora: um motim!
            Dito isso, fechou-lhe na cara a porta da sala.
            Antes que pudesse refazer-se, já o boy vinha dar o recado que o chefe queria que ele levasse o carro para a oficina,  por causa daquele barulho estranho que estava fazendo, desde o dia anterior.
            Bufando de raiva, Gumercindo pegou o automóvel e saiu  disparado. Ia remoendo as palavras da secretária e, na sua indignação, nem reparou quando avançou um sinal.
Acontece que o guarda de trânsito estava atento e viu. Viu e apitou. O rapaz, como se acordasse repentinamente, assustou-se e pisou com força o freio. O carro parou imediatamente. O caminhão que vinha atrás, não. O choque foi grande e o estrago muito maior.
Gumercindo colocou as mãos na cabeça. Desceu, desesperado:
—O patrão vai me matar. Era só um barulhinho estranho e agora...
O guarda não se comoveu nem um pouco. Pediu os documentos, puxou o talão do bolso, a caneta...
O rapaz estava arrasado. Não sabia o que dizer e, muito menos, como contar ao patrão o que acontecera.  Logo ele que era tão cuidadoso, nunca em sua vida estivera envolvido em qualquer confusão de trânsito. E tudo por culpa daquela bruxa mau-caráter. Recebeu os documentos e a multa que o guarda entregou com um sorrisinho que lhe pareceu de deboche.
—Tá rindo de quê? Pensa que eu sou algum otário pra ficar rindo da minha cara? Meu patrão é um homem muito rico e importante e, se ele quiser, te faz engolir essa multa, seu guardinha de m...
Levou um pescoção tão forte que o palavrão entalou na garganta. Foi preso por desacato à autoridade.
Ao final da tarde, o delegado permitiu que ele telefonasse pro patrão. A voz saía tão fraca e tremida, as palavras tão atropeladas que, de início, G.G nada entendeu. Quando finalmente se deu conta do ocorrido, faltou-lhe o fôlego. De repente seu rosto redondo se cobriu de um rubor tão intenso, que parecia um tomatão com nariz. Do outro lado da linha, Gumercindo esperava, temeroso, a reação do chefe. Vendo que ele não se manifestava, perguntou cauteloso:
—Tudo bem, seu Gesu? O senhor entendeu tudo? O que é que eu faço?
Como resposta, ouviu o clic do aparelho sendo colocado no gancho. Em desespero, pensou: “Ele vai me matar”.
G.G. estava a ponto de explodir. Seu coração batia descompassado e ele levou a mão ao peito, como se quisesse fazê-lo acalmar-se. Foi quando sentiu um calafrio. Tinha a impressão de que a temperatura ambiente baixara uns quinze graus. Chegou a olhar para o ar refrigerado, mas viu que estava desligado. Sua raiva foi diminuindo, diminuindo até desaparecer. Passou em revista o que lhe acontecera desde a madrugada daquele dia e concluiu que alguma coisa estava errada. Pensou nos filhos e na mulher, na pobre da dona Arlete. Sentiu-se esquisito, arrependido. Ligou para casa, pediu desculpas à mulher e mandou que ela falasse com os meninos. Ele os amava a todos, não fizera por mal. Ela concordou e disse que estava fazendo torta de maçã para o jantar. Ele adorava.
Mandou chamar dona Arlete. Ela entrou educadamente distante, com um papel na mão.
—Não precisa se preocupar, seu Gesu, eu já fiz a minha carta de demissão. É só o senhor assinar.
—Olha, dona Arlete, eu só mandei chamá-la aqui para me desculpar pelas grosserias desta manhã. Eu não tinha o direito de fazer o que fiz com a senhora. Me desculpe, por favor, os negócios ainda vão me matar. Estou cheio de preocupações...
Desta vez, as lágrimas saltaram dos olhos de ovelha e escorreram pela face.
—Que é isso, seu Gesu, não fica assim não, tudo vai dar certo, o senhor é muito esperto, vai resolver tudo logo, logo. E o que precisar de mim, é só pedir.
Saiu da sala saltitante. Seu Honório comentou:
—Pronto, pessoal, ela agora tá feliz. Vai aí um cafezinho?
Dentro do escritório da chefia, G.G. respirou fundo, satisfeito consigo mesmo.
Um calorzinho bom envolveu sua alma e, bem lá no fundo, ele sentiu uma voz suave que lhe dizia:
—Não é bem melhor assim, Gesu? Vê se aprende, de uma vez por todas, a dominar esse teu gênio. Você tem-me dado um bocado de trabalho!
Ouviu um barulho de bater de asas e uma pena muito fina e muito branca veio cair na mesa bem à sua frente.
Quanto ao Gumercindo, a dona Arlete foi até à delegacia com o advogado da firma e resolveram tudo.
O carro azul foi para a oficina e ele ficou dirigindo o carro esporte vermelho até que o outro ficasse pronto.

Afinal, rico resolve tudo fácil, fácil.

15.7.12

O poblema do Zé

 A tarde ia a meio. A repartição estava uma pasmaceira só. Nem as moscas se davam ao trabalho de atormentar as pessoas presentes. O pouco serviço que houvera para fazer estava terminado. O chefe não aparecera, o que era cada vez mais comum, e os funcionários estavam por ali, zanzando à toa, contando piadas, um cafezinho, fazendo crochê, um cafezinho, falando da vida alheia, outro cafezinho, lixando as unhas, resolvendo palavras cruzadas...mais um cafezinho...
    —Mário, você é demais, sabia? Ninguém conta uma piada igual a você...
    —Mário, quando é que a gente vai ver aquele filme? Você prometeu...
    —Filme? Que filme? Você vai levar a Aninha ao cinema? E pra quando fica aquela nossa saidinha à noite?
    Ele fica com todas elas e eu aqui, jogado fora. O que é que eu tenho de errado? Como será que ele faz? Tudo bem que é bonitão e tal, mas...
    —E aí, Zé, o que é que tá pegano? Fica aí sozinho, ciscando, com essa cara descolada...
    —É, Mário, tem alguma coisa pegando mesmo e eu estou aqui no meu canto cismando e, para teu governo, quem está ficando desconsolado é o meu ouvido...
    —Que papo é esse? Tá com dor de ouvido? Eu mando vir um remédio da farmácia que é porreta.
    —Não é nada disso, Mário. Eu estou chateado, é só.
—Pára com isso, meu chapa. Conta aqui pro teu amigo o que é que tá incomodano que eu resolvo. Amigo meu não fica assim.
    O Zé ficou na dúvida. Na hora de tomar qualquer decisão, ele sempre ficava. Será que valia a pena se abrir com ele? Observou a expressão atenta do colega, aquele jeito de quem tem sempre uma resposta para tudo, o ar alegre de quem consegue o que quer... Resolveu abrir seu coração.
    Estava com trinta e dois anos, não era burro, tinha um emprego que, se não era lá uma maravilha, também não era ruim. Morava sozinho num apartamentinho bem jeitoso, confortável, tinha seu próprio carro...Mas não arrumo ninguém!
    As últimas palavras saíram com sacrifício, quase sussurradas, como se estivesse confessando um crime. Imediatamente se arrependeu de ter falado.
    —Esquece, Mário, besteira minha. Acho que é essa falta do que fazer...
    —De jeito nenhum que vou esquecer! Vamos dar o fora daqui e ver o que é que agente faz. Eu tenho uma idéia. Essa coisa de mulé é comigo mermo. Cê sabe que nesse troço eu sou formatado com deploma na parede e tudo.
    Para total desespero das meninas, Mário despediu-se e foi levando um Zé murcho e sem graça atrás de si.
    —Eu nunca tive esse teu poblema, Zé, pelo contrário, preciso é fazer ginástica pra me livrar de algumas mulheres que não largam do meu pé. Eu sou assim mesmo, decisivo. Se tenho que fazer alguma coisa faço logo, por isso é que nós vamos resolver essa questã ainda hoje. Deixa comigo. Faz o que eu te mandar e cê vai se dar bem.
    —Mas o que é que você...
—Não pergunta nada. Vai por mim.
    O Zé, com era hábito, resignou-se. Foi seguindo o amigo. Este aproveitou o silêncio e foi contando todos os seus casos só pra inlustrar, pra dar exemplo, não era pra ficar se gambando nem nada assim. O Zé balançava a cabeça.
    —Além de ter boa parecença, tem que ter bom papo, saber das coisas, fazer elogio na hora certa, sabe como é? Vai aprendeno, Zé.
    Depois de alguns quarteirões entraram em uma rua movimentada. O Mário parou em frente a uma loja. O Zé parou também.
    —Agora você pode me explicar...
    —Olha só, Zé, primeiro a gente tem que começar pela parecença.
    —Como assim?
—Olha só essa tua roupa! Caidinha, sem-graça. Não me leva a mal, meu chapa, não tô quereno ofender...
    — Ah, a aparência... Tá, tudo bem, não me ofendo não.
    — Depois tem outro poblema.
    — Mais um? Estou começando a perceber porque não arrumo nada com as mulheres.
    — É esse cabelo...
    — Cabelo? Mas...
    — É isso aí.
    — Continuo sem entender.
    — Tu tem que comprar é uma peruca, Zé. Mulé não se amarra num calvário
    — Calvo...
           — Esse troço aí...A mina olha, vê aquela bola de bilhar e já fica pensano “esse cara tá cansado, velho, careca...” sabe como é que é. Já com cabelo, eu garanto que tu se dá bem...
         — Você se dá bem...
         — Claro, né, mermão, eu tenho esta vasta cabeleireira, modéstia em partes...
          — Basta cabeleira, modéstia à parte. Pelo amor de Deus, Mário, pára de falar besteira!
         — Tu que sabe. Tô a fim de ajudar, mas se tu não qué...
        — Não é nada disso, o problema é o teu português e...
        — Vê lá como é que fala! Sô teu amigo, Zé, tá me estranhano? Eu gosto muito é de mulé: M-U MU, L-E LE, mulé. Que papo é esse de meu português?
        Zé deu um profundo suspiro. Mário era um mesmo um ótimo sujeito, amigo, estava disposto a ajudar, prestativo, mas a enxurrada de asneiras que continuava derramando por todo o canto, já estava inundando sua paciência. Além disso tinha encasquetado uma idéia e nem pedira opinião.
    Voltou a atenção para a loja. Na vitrine, uma variedade de cabeleiras postiças. Zé ainda tentou argumentar, mas Mário já pegara o celular e falava com a balconista da loja.
     Aquela situação era ridícula. Por que não entrava logo e perguntava o que queria?
    —Tem peruca pra home também? Maravilha! Tô ino praí. Não, boneca, eu não preciso, é prum amigo meu.
    Agarrou o outro pelo braço e foi arrastando pra dentro da loja.
    — Boa tarde, posso ajudar?—derreteu-se a vendedora, descaradamente.
    — Belezésima, o meu amigão aqui tá precisano de uma peruca que seje a cara dele, sacomé?
    A moça mal olhou pra cara do Zé Augusto. Arreganhou um sorriso derretido e, piscando os olhos muito azuis, disse com voz melosa:
    —Tudo que você quiser, bonitão.
    Mário sorriu-lhe de volta. O Zé se encolheu.
    Dirigiu-se aos fundos da loja, rebolando, em cadência estudada, o traseiro arrebitado e, pouco depois, voltou com os braços cheios de caixas das quais foi retirando as perucas e colocando sobre o balcão.
    O Zé, completamente vexado, tentou argumentar, mas Mário foi pegando uma a uma e colocando-as no coitado que só sabia suspirar a cada vez que se olhava no espelho.
    —Deixa pra lá, Mário... Eu já me acostumei assim, sem cabelo. Olha, até prefiro. Isso de cabeleira postiça não vai dar certo, não combina comigo e, além disso...
    —Fecha essa catraca e vai pondo os cabelo aí. Olha essa, boneca, tu não ficava apaixonada por ele?
    Já que o bonitão havia pedido, a boneca olhou e, por pouco, não soltou um cruz-credo!!, mas fez um hum-hum meio sem conviccção, só pra agradar.
—    Tá vendo só, seu inconfiado...
—    Desconfiado, Mário, desconfiado...
E assim, enquanto o amigo ia dizendo asneira atrás de asneira e a mocinha suspirava e piscava, o Zé foi pacientemente mudando de cabelo. Lá pelas tantas a balconista estendeu-lhe uma cabeleira verde. Foi a gota d’água.
     —Chega de palhaçada! Vamos embora. Se alguém não vai gostar de mim, só por não ter cabelo, então que seja assim. Não vou ficar por aí bancando o ridículo. Pensa bem, Mário, vai que eu encontre uma mulher legal e ela me conhece com um troço desse aí na cabeça e então a gente se acerta e passa a se ver com freqüência— e ela pensando que eu sou do jeito que ela me vê— aí, um belo dia, a coisa vai engrenando e a gente acaba indo pra cama juntos e eu saio do banheiro de cuecas e ... com o carecão brilhando. O que é que você acha que vai acontecer,hein? Diz aí, vai, você que sempre tem resposta pra tudo. Você acha que ela vai dizer “puxa que surpresa agradável, que bom que você esperou este momento de romantismo para me mostrar essa carequinha linda”, acha? Besteira! Ela vai é rir na minha cara! Se for bem educada, é até capaz de não falar nada, só ficar lá, de olho arregalado, espiando pro alto da minha cabeça e eu sabendo o que ela está pensando...Não compro porcaria de peruca nenhuma e ponto final!  Tá encerrado o assunto! Não se fala mais nisso!
Pela primeira vez a mocinha olhou de verdade para o rapaz. Pela primeira vez, Mário prestou atenção ao que dizia o amigo. Também pela primeiríssima vez, José Augusto Abrantes Junqueira dizia com todas as letras o que pensava e o que queria. Respirou fundo, satisfeito, e sorriu. “Você tem um lindo sorriso!” disse a mocinha, batendo repetidamente os longos cílios.  Reparando melhor, o cabelo não faz falta nenhuma. Até que você é um cara bem interessante.
    Não é preciso falar do espanto de José Augusto. Mulher alguma, a não ser a mãe, lhe dera alguma atenção desde que passara a tomar conhecimento da existência delas, no entanto, a loura sorria-lhe com o mesmo sorriso cheio de promessas que enviara ao bonitão do Mário. Já que estava no embalo, aproveitou a oportunidade.
    Em menos de três meses estavam casados.
E o Mário?
    Bem, o Mário, como foi padrinho de casamento, vai visitá-los com freqüência e, a cada vez, com uma mulher diferente. Afinal, como ele mesmo diria, é um homem originário que não gosta de mornotonia e, sempre que pode, vareia.