15.2.18

Defendo minhas ideias a qualquer custo. Tenho personalidade forte. Será?


Usualmente as pessoas discutem para tentar trocar ideias sobre determinadas questões e, quando essa discussão se mantém no exato limite da divergência colaborativa, isto é, quando cada um dos contendores tenta acrescentar outros argumentos e pontos de vista complementares às posições do outro, dá-se o enriquecimento pessoal, a abertura de horizontes o que é extremamente benéfico a ambos.

Por outro lado, quando o objetivo é a supremacia, a vontade de “vencer” o opositor, tudo se perde. Quanto mais discordam, quanto mais se empenham em dominar a voz alheia, mais se fecham em suas próprias “verdades”, cristalizando o pensamento, pois não abrem canais que lhes permitam vislumbrar outros caminhos nem descortinam horizontes que desconhecem.

Ora, esta última posição marca indivíduos cujo traço característico costuma ser o medo de perderem a si mesmos. Não lhes são própria a curiosidade intelectual e, tampouco, a saudável ousadia de mudar. Aferram-se a conceitos pequenos e parciais, pois só assim, se sentem protegidos. O senso comum lhes é confortável, porque se sentem respaldados por aquilo que “a maioria pensa”. Adoram o ditado ’ a voz do povo é a voz de Deus’ como se povo aí significasse ‘ aqueles que pensam como eu’.
Presos nessa armadilha, preferem chamar de personalidade forte àquilo que não passa de estreiteza de visão e teimosia. Tal qual crianças birrentas querem ter sempre razão, por mais que se lhes mostrem provas concretas.

Pessoas de personalidade forte sentem-se confortáveis consigo mesmas, não precisam da validação alheia para o que são ou pensam, mas estão dispostas a ouvir argumentos alheios e a pensar sobre eles, mesmo que acabem discordando. Quando concordam, não tem pudor em declarar isso, pois estão isentas do medo de “se perderem”. Sobretudo, procuram usar seu conhecimento, para ajudar o outro a pensar.

Então, antes de nos definirmos como alguém de forte personalidade, é preciso ter a coragem de ouvir e pensar, antes de retrucar, ofender, desmerecer o outro. Pensemos nisso!
Rosa Maria Ferrão. 15/02/2018

9.12.17

Luz, câmera, ação!

O vermelho do sol poente vai tingindo a paisagem ao redor e os passantes, subitamente corados e saudáveis por sobre a palidez que o inverno deixou nas faces.
Automóveis e ônibus arrastam-se lentos no engarrafamento-imensa serpente de olhos de fogo.

Solitário, mãos nos bolsos vazios, passeia à- toa, na ociosidade de férias sem dinheiro. Fixa os olhos nas formas caprichosas das nuvens douradas. Os ruídos da grande cidade roçam os ouvidos sem perturbar, no hábito da poluição sonora: Ideias vagam sem definição, companheiras do caminhar sem destino: o custo de vida, uma briga de infância, as férias obrigatórias, uma namorada, o açúcar para comprar...
As pernas seguem independentes. Uma revoada de pardais—serão andorinhas?

De repente, o choque de corpos, o grito de susto, barulho de vidro quebrando. Atrapalhado, segura com força dois braços macios e uma onda de perfume invade-lhe as narinas.
— Droga! Olha só o que você fez! Tudo espalhado pelo chão! Minhas azeitonas! Você não olha pra onde vai, cara? Que coisa!
— Me desculpa, eu não vi...Estava distraído, vendo...eu juro que não fiz de propósito,  desculpa! É verdade mesmo, eu...

Mão poderosa apertou seu braço, num repuxão.
— Pode soltar, cara. Tudo bem, foi sem querer. Deixa pra lá.
Numa contração de estômago, reconhece o moreno rosto zangado, os dentes perfeitos no sorriso maldoso. Só me faltava essa...será que me reconheceu? Tô na rua... Dar trombada na mulher do presidente da firma é tudo que eu precisava agora...
Começa a recolher as compras espalhadas pela calçada. Vai colocando-as entre os braços da loira, que avião, enroscando as mãos nos longos cabelos, ao tentar segurar um pacote de torradas que teima em voltar ao chão.
— Êpa, desculpa... droga, não sei o que há comigo hoje...perdão, pode deixar que eu pego...puxa vida!
— Já falei, cara, deixa pra lá! Que saco! Vamos embora!

O carro sobre a calçada. O cenho franzido, ao volante. A longa cabeleira dourada jogada sobre os ombros, as longas pernas recolhidas, a porta vermelha que se fecha, o pisca alerta, o som de pneus queimando o asfalto...
— Tô ferrado!
Uma náusea forte. Ofega. O céu estrelado, o cheiro da brisa marinha, a lua, as luzes de néon, tudo se foi. A paz se foi. Assim, num estalar de dedos. Um arrepio de frio desce pelas costas e os dentes batem uns contra os outros. Abraçado ao próprio corpo, aperta o passo e volta pra casa.

Princesinha do Mar — o letreiro na entrada do prédio.Lar doce lar — a plaquinha na porta do apartamento.
No minúsculo quarto alugado, joga-se sobre a cama que range. No ar, cheiro de repolho cozido e a refogado. Volta com força a ânsia de vômito. Despeja no vaso toda a aflição. Aliviado, torna a deitar-se. Os pensamentos atropelam-se. Tenta dormir. Não consegue.  .
Ele não aceitou minhas desculpas...vi nos olhos, ficou com ódio! pensou que fiz de propósito de graça sei lá...agora pode estar imaginando que eu queria me aproveitar da mulher— que gata!— vai me botar no olho da rua...  como é que eu vou pagar o aluguel, as contas, não tá fácil arrumar emprego e voltar pra casa nem pensar meu pai vai falar não disse? ah, não esse gosto eu não vou dar pra ele não mas isso não vai ficar assim amanhã vou lá falo com ele explico tudo ele vai ter que acreditar nem que eu chore ou me ajoelhe qualquer coisa...O sono finalmente chegou, quase junto com o sol.

Olheiras fundas, olhos vermelhos e rosto barbado apresentam-se à secretária de nariz empinado que o olha com desconfiança. Quem é ele, o que quer, não pode ser, o chefe está muito ocupado nesta manhã, depois tem reunião de diretoria, é melhor marcar outra hora...
— Olha aqui moça, senhorita...senhora? Pois bem, minha senhora, é um assunto de extrema gravidade e urgência, particular. É caso de vida ou morte, não pode esperar... Eu tô lhe pedindo pelo amor de Deus...Não vou demorar, prometo...Pelo amor de seus filhos...Não tem? Então pelo amor de sua mãezinha...Morreu? Que Deus a tenha, mas deixa eu falar com o homem, por favor!
O aspecto doentio, o ar de tragédia, os olhos verdes... Quem sabe os motivos de uma mulher?
Uma secretária comovida leva o rapaz à sala da presidência, após angustiantes quarenta minutos.

— Quem é você afinal? O que quer? Fale rápido que estou de saída para uma reunião.
— Senhor, sou funcionário do departamento de pessoal e ontem à noite...bem, quando dei um encontrão na senhora sua esposa, bem... eu não pretendia... não foi por querer...quero dizer, o senhor podia pensar que, mas não, não foi...
— Não acredito! Então é isso! Você vem ocupar meu tempo com uma besteira dessa?.Eu mereço! Não estava nem mais pensando no assunto. Afinal o que é que você está querendo, fazer graça? Não estou aqui para brincadeiras, tenho mais o que fazer. cai fora, cara, e vê se não me aborrece mais. Vai tratar da tua vida e não me enche a paciência! Cada uma que me acontece!
Vertigem, novamente o estômago. Um suor gelado vai ensopando a camisa, debaixo dos braços. As pernas trêmulas se recusam a obedecer.
— Como é que é, cara, não ouviu? Rua! Vai dando o fora antes que eu perca a calma!
Assustada com os gritos, entra a secretária.
— Tira esse cara daqui!

Com dois ou três empurrões o rapaz está fora.
Como um autômato, dirige-se ao elevador. Uma névoa aquosa embaça a visão. Zumbido de vozes em mistura.Porta de elevador que se abre: “Desce!” Gente sai, gente entra. Tô ferrado de verde e amarelo! Na rua, na miséria...que é que eu faço? Tô morto, acabado! Um avião caiu na minha cabeça!
— Ôpa, desculpe!
Bolsa de mulher aberta no chão. Uma infinidade de pequenos objetos espalhados pelo carpete felpudo. Uma onda de perfume. Uma loura onda perfumada.
— De novo? Tem certeza que não está precisando de óculos? Quem sabe uma bengala branca, um cão guia?
Olhar divertido, espantado, sem raiva. O branquíssimo sorriso por entre os lábios rosados, cheios.
— Ah, não! Outra vez não é possível!
As lágrimas, a custo represadas, escorrem abundantes, pelos olhos, pelo nariz.
— Eu sou o cara mais azarado do planeta. Só pode! Deixa..  eu pego tudo. A senhora... não vai acreditar...Acabei de sair ...da sala do seu marido. Fui tentar explicar... de ontem, sabe? Ficou uma fera, não acreditou em mim...me botou de lá pra fora...Aí vem a senhora e ... é muito azar...
Os soluços cada vez mais fortes.
Gente olhando, sem nada entender, curiosa.
— Pronto! Está tudo...aqui na bolsa...desculpe de novo...acho que não falta nada...não sei mais o que fazer...Inferno de vida!
— Pelo amor de Deus! Também não é motivo pra tanto desespero. Para com isso. Toma este lenço e limpa esse rosto vai! Vamos fazer o seguinte: descemos juntos e eu te pago uma bebida pra relaxar, tá bem?
— Eu fico muito agradecido. Tô mesmo precisando. Como é mesmo seu nome?

Em menos de um ano aconteceram um divórcio e um casamento.
O infeliz tornou-se o novo presidente da empresa. Ela é que é a proprietária mesmo!
Vivem apaixonadamente. São felizes e o mundo é maravilhoso.
Às vezes, fazem coisas corriqueiras, como ir ao supermercado, por exemplo. Foi o que aconteceu hoje.

É inverno. Um sol dourado e vermelho lambuza o horizonte, colore as fisionomias dos transeuntes. No engarrafar do trânsito, entre os habituais ruídos da grande cidade um homem caminha distraído, mãos nos bolsos. Acompanha, de rosto voltado para o céu, o voo das andorinhas—ou serão pardais? Chocam-se corpos. Vidro é quebrado. Colhido pela surpresa, o homem segura uma perfumada onda loira pelos braços.
— Você?

O jovem marido puxa a mulher pela mão e ri. Corre com ela pra dentro do carro e grita:
— Esse filme eu já vi! E nessa história, malandro, o mocinho sou eu!