2.11.13

O mundo mágico de Michael Cheval

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10.8.13

O dia em que seu Gesu dormiu mal










G.G. rolou na cama a noite inteira. Teve pesadelos, calafrios, ondas de calor, dor de cabeça, pontadas no estômago, câimbras nas pernas. Tremeu, suou, gemeu. A pobre de dona Almerinda fez todo o possível para aliviar as agonias do marido, mas não houve chá, remédio, nem carinho que desse jeito. Aflita, corria do quarto para a cozinha e de volta pro quarto. Lá pelas tantas, desistiu. Foi para o sofá da sala e caiu desmaiada de cansaço.
            G.G, como era de se esperar, acordou com a cachorra. Gritou com a empregada por causa do café, fraco, fedorento, insuportável. O filho mais velho ouviu um discurso de hora e meia, como resposta ao seu bom-dia: já estava mais do que na hora de começar a trabalhar, não sou besta de carga de filho boa-vida que só pensa em farra e mulher, na tua idade eu já era dono de fábrica de calçados, comecei meninote, varrendo chão, servindo café... depois, vendedor de sapatos. Não tive essa moleza não, meu pai me trazia na rédea curta... A filha entrou na sala, ouviu, deu meia volta, mas não escapou. Pensa que eu não vi a que horas a senhorita chegou com aquele vagabundo metido a artista, pensa que eu estou cego? Ou me arruma um homem decente, ou te boto num convento, que é lugar de mulher cabeça-de–vento tomar jeito.
            Dona Almerinda achou melhor nem aparecer. Depois de trinta anos de casamento, já conhecia de cor aquelas tempestades. Sempre que os negócios não iam lá muito bem, eram raios e trovões por toda parte, depois tudo se ajeitava e o sol brilhava novamente. Foi para o quarto e voltou a dormir.
            No escritório, onde chegou antes de todos, G.G sentou-se à mesa de trabalho. Estava coberta de papéis. Começou a folheá-los, lendo um a um atentamente. A cada folha virada, sua respiração se acelerava. Em pouco tempo, bufava. Foi quando dona Arlete entrou, trazendo um luminoso sorriso colado à cara.
            —Bom dia, seu Gesu, madrugou hoje, hem? Que foi, deu formiga na sua cama?
            O olhar furibundo de G.G fez dona Arlete engolir em seco.
            —Desculpe, seu Gesu, eu não pretendia...
            —Olha aqui, dona Arlete, eu não lhe dou intimidades para vir à minha sala com gracinhas idiotas. A senhora é paga, e excessivamente bem paga, para fazer seu serviço, que, aliás, pelo que pude ver até agora, está uma bela porcaria!
            —Mas, seu Gesu, eu fiz tudo como o senhor mandou! Separei o balanço do semestre, bati todas as cartas, coloquei as faturas no arquivo... até a sua mesa limpei com óleo de peroba, que, aliás, nem é de minha obrigação fazer, mas fiz por gosto e...
            —Por acaso a senhora não está satisfeita? Acha que com as suas qualificações vai arrumar uma moleza igual a esta e ainda por cima ser paga pra fazer as trapalhadas que tem feito? Se acha, pode ir tratando de procurar outro lugar pra se encostar. E agora dê o fora que eu tenho mais o que fazer.
            Dona Arlete estava lívida, muda de espanto. Os já enormes olhos de ovelha se arregalaram, tentando segurar as lágrimas que boiavam, quase transbordando. Muitas vezes tivera que agüentar o mau humor do patrão, mas ele jamais lhe falara daquela forma grosseira. Saiu rapidamente, levando a porta atrás de si.
            Do outro lado estavam alguns funcionários tomando um cafezinho, batendo um papinho, remanchando por ali naquela de dar um tempo pra preguiça matinal ir embora. Aquele era um hábito de anos na firma e nunca incomodara ninguém. Eram ótimos trabalhadores, funcionários responsáveis e dedicados. O próprio Gumercindo, chofer do patrão, que, além da pouca idade, também estava há menos tempo que os outros a serviço da empresa, levava a sério suas obrigações.
            Quando o estrondo da porta cortou o zunzum das conversas, fez-se um imediato silêncio.Alguns pares de olhos fixaram-se na face pálida de dona Arlete que, de imediato, começou a esbravejar:
            —O que é que está havendo aqui? Pensam que estão na casa da sogra? Pilhas de serviço em cima das mesas e vocês aí de trololó, fazendo cera, enquanto o patrão paga as contas! Muito cômodo!
            —Ô dona Arlete, que qué isso? A gente só tá batendo um papinho, fazendo uma social, enquanto o povo toma um cafezinho esperto que eu fiz, mas já já a gente pega no batente, não precisa ficar nervosa, não. Eu, hein!?
            —Eu, hein? Eu, hein? Que história é essa de eu hein? Preste atenção, seu Honório, não pense que pode ir assim me respondendo não. Que confiança é essa? Mando colocá-lo no olho da rua, tá sabendo? Onde é que já se viu esse abuso? E vamos todos trabalhando, não tem ninguém distribuindo doce aqui não!
            Retirou-se batendo os saltos dos sapatos, deixando todos de boca aberta, sem entender coisa alguma. O Gumercindo, jovem que era e cheio de ideais de justiça, resolveu que aquilo não ia ficar assim. Onde é que já se viu aquela mulherzinha metida a besta, só por ser secretária do patrão, achar que podia ir assim destratando um senhor de idade, ainda mais sendo gentil e bem educado feito o seu Honório? Foi atrás.
            —Ô dona Arlete, que história foi aquela com o seu Honório? Não é direito falar com ele daquele jeito e...
            —Olha aqui, seu moleque, quem você pensa que é pra vir chamar minha atenção? Ponha-se daqui pra fora e não me aborreça, ou vai pra rua junto com ele. Só me faltava essa agora: um motim!
            Dito isso, fechou-lhe na cara a porta da sala.
            Antes que pudesse refazer-se, já o boy vinha dar o recado que o chefe queria que ele levasse o carro para a oficina,  por causa daquele barulho estranho que estava fazendo, desde o dia anterior.
            Bufando de raiva, Gumercindo pegou o automóvel e saiu  disparado. Ia remoendo as palavras da secretária e, na sua indignação, nem reparou quando avançou um sinal.
Acontece que o guarda de trânsito estava atento e viu. Viu e apitou. O rapaz, como se acordasse repentinamente, assustou-se e pisou com força o freio. O carro parou imediatamente. O caminhão que vinha atrás, não. O choque foi grande e o estrago muito maior.
Gumercindo colocou as mãos na cabeça. Desceu, desesperado:
—O patrão vai me matar. Era só um barulhinho estranho e agora...
O guarda não se comoveu nem um pouco. Pediu os documentos, puxou o talão do bolso, a caneta...
O rapaz estava arrasado. Não sabia o que dizer e, muito menos, como contar ao patrão o que acontecera.  Logo ele que era tão cuidadoso, nunca em sua vida estivera envolvido em qualquer confusão de trânsito. E tudo por culpa daquela bruxa mau-caráter. Recebeu os documentos e a multa que o guarda entregou com um sorrisinho que lhe pareceu de deboche.
—Tá rindo de quê? Pensa que eu sou algum otário pra ficar rindo da minha cara? Meu patrão é um homem muito rico e importante e, se ele quiser, te faz engolir essa multa, seu guardinha de m...
Levou um pescoção tão forte que o palavrão entalou na garganta. Foi preso por desacato à autoridade.
Ao final da tarde, o delegado permitiu que ele telefonasse pro patrão. A voz saía tão fraca e tremida, as palavras tão atropeladas que, de início, G.G nada entendeu. Quando finalmente se deu conta do ocorrido, faltou-lhe o fôlego. De repente seu rosto redondo se cobriu de um rubor tão intenso, que parecia um tomatão com nariz. Do outro lado da linha, Gumercindo esperava, temeroso, a reação do chefe. Vendo que ele não se manifestava, perguntou cauteloso:
—Tudo bem, seu Gesu? O senhor entendeu tudo? O que é que eu faço?
Como resposta, ouviu o clic do aparelho sendo colocado no gancho. Em desespero, pensou: “Ele vai me matar”.
G.G. estava a ponto de explodir. Seu coração batia descompassado e ele levou a mão ao peito, como se quisesse fazê-lo acalmar-se. Foi quando sentiu um calafrio. Tinha a impressão de que a temperatura ambiente baixara uns quinze graus. Chegou a olhar para o ar refrigerado, mas viu que estava desligado. Sua raiva foi diminuindo, diminuindo até desaparecer. Passou em revista o que lhe acontecera desde a madrugada daquele dia e concluiu que alguma coisa estava errada. Pensou nos filhos e na mulher, na pobre da dona Arlete. Sentiu-se esquisito, arrependido. Ligou para casa, pediu desculpas à mulher e mandou que ela falasse com os meninos. Ele os amava a todos, não fizera por mal. Ela concordou e disse que estava fazendo torta de maçã para o jantar. Ele adorava.
Mandou chamar dona Arlete. Ela entrou educadamente distante, com um papel na mão.
—Não precisa se preocupar, seu Gesu, eu já fiz a minha carta de demissão. É só o senhor assinar.
—Olha, dona Arlete, eu só mandei chamá-la aqui para me desculpar pelas grosserias desta manhã. Eu não tinha o direito de fazer o que fiz com a senhora. Me desculpe, por favor, os negócios ainda vão me matar. Estou cheio de preocupações...
Desta vez, as lágrimas saltaram dos olhos de ovelha e escorreram pela face.
—Que é isso, seu Gesu, não fica assim não, tudo vai dar certo, o senhor é muito esperto, vai resolver tudo logo, logo. E o que precisar de mim, é só pedir.
Saiu da sala saltitante. Seu Honório comentou:
—Pronto, pessoal, ela agora tá feliz. Vai aí um cafezinho?
Dentro do escritório da chefia, G.G. respirou fundo, satisfeito consigo mesmo.
Um calorzinho bom envolveu sua alma e, bem lá no fundo, ele sentiu uma voz suave que lhe dizia:
—Não é bem melhor assim, Gesu? Vê se aprende, de uma vez por todas, a dominar esse teu gênio. Você tem-me dado um bocado de trabalho!
Ouviu um barulho de bater de asas e uma pena muito fina e muito branca veio cair na mesa bem à sua frente.
Quanto ao Gumercindo, a dona Arlete foi até à delegacia com o advogado da firma e resolveram tudo.
O carro azul foi para a oficina e ele ficou dirigindo o carro esporte vermelho até que o outro ficasse pronto.

Afinal, rico resolve tudo fácil, fácil.

15.7.12

O poblema do Zé

 A tarde ia a meio. A repartição estava uma pasmaceira só. Nem as moscas se davam ao trabalho de atormentar as pessoas presentes. O pouco serviço que houvera para fazer estava terminado. O chefe não aparecera, o que era cada vez mais comum, e os funcionários estavam por ali, zanzando à toa, contando piadas, um cafezinho, fazendo crochê, um cafezinho, falando da vida alheia, outro cafezinho, lixando as unhas, resolvendo palavras cruzadas...mais um cafezinho...
    —Mário, você é demais, sabia? Ninguém conta uma piada igual a você...
    —Mário, quando é que a gente vai ver aquele filme? Você prometeu...
    —Filme? Que filme? Você vai levar a Aninha ao cinema? E pra quando fica aquela nossa saidinha à noite?
    Ele fica com todas elas e eu aqui, jogado fora. O que é que eu tenho de errado? Como será que ele faz? Tudo bem que é bonitão e tal, mas...
    —E aí, Zé, o que é que tá pegano? Fica aí sozinho, ciscando, com essa cara descolada...
    —É, Mário, tem alguma coisa pegando mesmo e eu estou aqui no meu canto cismando e, para teu governo, quem está ficando desconsolado é o meu ouvido...
    —Que papo é esse? Tá com dor de ouvido? Eu mando vir um remédio da farmácia que é porreta.
    —Não é nada disso, Mário. Eu estou chateado, é só.
—Pára com isso, meu chapa. Conta aqui pro teu amigo o que é que tá incomodano que eu resolvo. Amigo meu não fica assim.
    O Zé ficou na dúvida. Na hora de tomar qualquer decisão, ele sempre ficava. Será que valia a pena se abrir com ele? Observou a expressão atenta do colega, aquele jeito de quem tem sempre uma resposta para tudo, o ar alegre de quem consegue o que quer... Resolveu abrir seu coração.
    Estava com trinta e dois anos, não era burro, tinha um emprego que, se não era lá uma maravilha, também não era ruim. Morava sozinho num apartamentinho bem jeitoso, confortável, tinha seu próprio carro...Mas não arrumo ninguém!
    As últimas palavras saíram com sacrifício, quase sussurradas, como se estivesse confessando um crime. Imediatamente se arrependeu de ter falado.
    —Esquece, Mário, besteira minha. Acho que é essa falta do que fazer...
    —De jeito nenhum que vou esquecer! Vamos dar o fora daqui e ver o que é que agente faz. Eu tenho uma idéia. Essa coisa de mulé é comigo mermo. Cê sabe que nesse troço eu sou formatado com deploma na parede e tudo.
    Para total desespero das meninas, Mário despediu-se e foi levando um Zé murcho e sem graça atrás de si.
    —Eu nunca tive esse teu poblema, Zé, pelo contrário, preciso é fazer ginástica pra me livrar de algumas mulheres que não largam do meu pé. Eu sou assim mesmo, decisivo. Se tenho que fazer alguma coisa faço logo, por isso é que nós vamos resolver essa questã ainda hoje. Deixa comigo. Faz o que eu te mandar e cê vai se dar bem.
    —Mas o que é que você...
—Não pergunta nada. Vai por mim.
    O Zé, com era hábito, resignou-se. Foi seguindo o amigo. Este aproveitou o silêncio e foi contando todos os seus casos só pra inlustrar, pra dar exemplo, não era pra ficar se gambando nem nada assim. O Zé balançava a cabeça.
    —Além de ter boa parecença, tem que ter bom papo, saber das coisas, fazer elogio na hora certa, sabe como é? Vai aprendeno, Zé.
    Depois de alguns quarteirões entraram em uma rua movimentada. O Mário parou em frente a uma loja. O Zé parou também.
    —Agora você pode me explicar...
    —Olha só, Zé, primeiro a gente tem que começar pela parecença.
    —Como assim?
—Olha só essa tua roupa! Caidinha, sem-graça. Não me leva a mal, meu chapa, não tô quereno ofender...
    — Ah, a aparência... Tá, tudo bem, não me ofendo não.
    — Depois tem outro poblema.
    — Mais um? Estou começando a perceber porque não arrumo nada com as mulheres.
    — É esse cabelo...
    — Cabelo? Mas...
    — É isso aí.
    — Continuo sem entender.
    — Tu tem que comprar é uma peruca, Zé. Mulé não se amarra num calvário
    — Calvo...
           — Esse troço aí...A mina olha, vê aquela bola de bilhar e já fica pensano “esse cara tá cansado, velho, careca...” sabe como é que é. Já com cabelo, eu garanto que tu se dá bem...
         — Você se dá bem...
         — Claro, né, mermão, eu tenho esta vasta cabeleireira, modéstia em partes...
          — Basta cabeleira, modéstia à parte. Pelo amor de Deus, Mário, pára de falar besteira!
         — Tu que sabe. Tô a fim de ajudar, mas se tu não qué...
        — Não é nada disso, o problema é o teu português e...
        — Vê lá como é que fala! Sô teu amigo, Zé, tá me estranhano? Eu gosto muito é de mulé: M-U MU, L-E LE, mulé. Que papo é esse de meu português?
        Zé deu um profundo suspiro. Mário era um mesmo um ótimo sujeito, amigo, estava disposto a ajudar, prestativo, mas a enxurrada de asneiras que continuava derramando por todo o canto, já estava inundando sua paciência. Além disso tinha encasquetado uma idéia e nem pedira opinião.
    Voltou a atenção para a loja. Na vitrine, uma variedade de cabeleiras postiças. Zé ainda tentou argumentar, mas Mário já pegara o celular e falava com a balconista da loja.
     Aquela situação era ridícula. Por que não entrava logo e perguntava o que queria?
    —Tem peruca pra home também? Maravilha! Tô ino praí. Não, boneca, eu não preciso, é prum amigo meu.
    Agarrou o outro pelo braço e foi arrastando pra dentro da loja.
    — Boa tarde, posso ajudar?—derreteu-se a vendedora, descaradamente.
    — Belezésima, o meu amigão aqui tá precisano de uma peruca que seje a cara dele, sacomé?
    A moça mal olhou pra cara do Zé Augusto. Arreganhou um sorriso derretido e, piscando os olhos muito azuis, disse com voz melosa:
    —Tudo que você quiser, bonitão.
    Mário sorriu-lhe de volta. O Zé se encolheu.
    Dirigiu-se aos fundos da loja, rebolando, em cadência estudada, o traseiro arrebitado e, pouco depois, voltou com os braços cheios de caixas das quais foi retirando as perucas e colocando sobre o balcão.
    O Zé, completamente vexado, tentou argumentar, mas Mário foi pegando uma a uma e colocando-as no coitado que só sabia suspirar a cada vez que se olhava no espelho.
    —Deixa pra lá, Mário... Eu já me acostumei assim, sem cabelo. Olha, até prefiro. Isso de cabeleira postiça não vai dar certo, não combina comigo e, além disso...
    —Fecha essa catraca e vai pondo os cabelo aí. Olha essa, boneca, tu não ficava apaixonada por ele?
    Já que o bonitão havia pedido, a boneca olhou e, por pouco, não soltou um cruz-credo!!, mas fez um hum-hum meio sem conviccção, só pra agradar.
—    Tá vendo só, seu inconfiado...
—    Desconfiado, Mário, desconfiado...
E assim, enquanto o amigo ia dizendo asneira atrás de asneira e a mocinha suspirava e piscava, o Zé foi pacientemente mudando de cabelo. Lá pelas tantas a balconista estendeu-lhe uma cabeleira verde. Foi a gota d’água.
     —Chega de palhaçada! Vamos embora. Se alguém não vai gostar de mim, só por não ter cabelo, então que seja assim. Não vou ficar por aí bancando o ridículo. Pensa bem, Mário, vai que eu encontre uma mulher legal e ela me conhece com um troço desse aí na cabeça e então a gente se acerta e passa a se ver com freqüência— e ela pensando que eu sou do jeito que ela me vê— aí, um belo dia, a coisa vai engrenando e a gente acaba indo pra cama juntos e eu saio do banheiro de cuecas e ... com o carecão brilhando. O que é que você acha que vai acontecer,hein? Diz aí, vai, você que sempre tem resposta pra tudo. Você acha que ela vai dizer “puxa que surpresa agradável, que bom que você esperou este momento de romantismo para me mostrar essa carequinha linda”, acha? Besteira! Ela vai é rir na minha cara! Se for bem educada, é até capaz de não falar nada, só ficar lá, de olho arregalado, espiando pro alto da minha cabeça e eu sabendo o que ela está pensando...Não compro porcaria de peruca nenhuma e ponto final!  Tá encerrado o assunto! Não se fala mais nisso!
Pela primeira vez a mocinha olhou de verdade para o rapaz. Pela primeira vez, Mário prestou atenção ao que dizia o amigo. Também pela primeiríssima vez, José Augusto Abrantes Junqueira dizia com todas as letras o que pensava e o que queria. Respirou fundo, satisfeito, e sorriu. “Você tem um lindo sorriso!” disse a mocinha, batendo repetidamente os longos cílios.  Reparando melhor, o cabelo não faz falta nenhuma. Até que você é um cara bem interessante.
    Não é preciso falar do espanto de José Augusto. Mulher alguma, a não ser a mãe, lhe dera alguma atenção desde que passara a tomar conhecimento da existência delas, no entanto, a loura sorria-lhe com o mesmo sorriso cheio de promessas que enviara ao bonitão do Mário. Já que estava no embalo, aproveitou a oportunidade.
    Em menos de três meses estavam casados.
E o Mário?
    Bem, o Mário, como foi padrinho de casamento, vai visitá-los com freqüência e, a cada vez, com uma mulher diferente. Afinal, como ele mesmo diria, é um homem originário que não gosta de mornotonia e, sempre que pode, vareia.

22.6.12

Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás



Na floresta

Fragmento de texto de Gibran Khalil Gibran.

Um homem bastante respeitável

Saiu logo cedo. Desceu a escada de três em três degraus. Cumprimentou o porteiro do prédio e o vizinho aposentado que lia o jornal, ao sol. Colocou os óculos escuros, tomou um táxi e foi trabalhar.
    Cumpriu todas as obrigações do dia— com certo brilho— é importante que se diga e voltou para casa. Tomou banho, jantou com a família, viu tv e dormiu e saiu logo cedo e desceu as escadas e cumprimentou quem viu os óculos o táxi o trabalho a casa o banho o jantar a tv o sono e
    Há quantos anos? Calcular pra quê? Não muda nada mesmo. É assim que tem que ser. É preciso. É conveniente e convencional. Além do mais, há os fins de semana. Sempre se quebra a rotina.
    Acordou mais tarde. Tomou o café e leu o jornal. Almoçou. Viu tv. Às vezes um cinema, às vezes uma dormida depois do almoço, às vezes uma visita à sogra, às vezes o aniversário do filhinho de alguém, às vezes,
    Também, inventar o quê? É sempre o mesmo. É assim com todo mundo. É normal. É calmo e natural. Além do mais há os encontros eventuais...
    Sempre se varia um pouco.
    Foi ao bar, depois do expediente, com os colegas. Bebeu uns chopes. E alguns outros a mais. Foi ao motel. Transou. Viu no relógio que era tarde e saiu apressado. Chegou com as desculpas que sempre se dão, sempre iguais, sempre aceitas. Deitou no escuro, tentando lembrar o nome da outra, era
    Também lembrar pra quê? Que importância isso tem? É carne. É momento. Todo mundo faz o mesmo. Ninguém se machuca. É usual, tão excitante e normal. Além do mais há a paz familiar a manter.
    Sempre se realiza um pouco.
    Poupança para as necessidades inesperadas.
    Casa própria para uma velhice segura.
    Trabalho estável para comida e conforto.
    Plano de saúde para as despesas desagradáveis.
    Seguro de vida para a garantia da família.
    Um ideal para dar sentido à existência.
    O que mais pode querer da vida um ser humano normal?
    De que mais se precisa para ser feliz?
Um dia houve sonhos e anseios. Medos e angústias. Desejos e utopias. Paixões e delírios. Dor e desconforto. Luta e crença. Riscos a correr.Tolices de juventude inexperiente.
    Fundamental é saber que
    a sociedade o tempo a idade se encarregam de conduzir o homem de volta ao rumo certo à vida regrada ao bom senso à lei e à ordem e, já que combina bem, ao progresso.
    Ó Pátria amada idolatrada salve salve.
    Harmonia. Tons e sons suaves. Não ao vermelho e ao negro ao grave e ao agudo. Equilíbrio. Razão emoções moderadas passageiras sob controle. Estabilidade. Sentimentos atitudes na dose certa na medida exata no momento adequado de modo conveniente são
    Vantagens de um homem maduro e consciente
    É imprescindível não gerar sofrimento. Principalmente a si mesmo e... aos outros? se possível...—às vezes os interesses são incompatíveis, o que se pode fazer? Viva tranquilo e em segurança a consciência em paz e sobretudo aprenda a dar o nome a isso tudo de felicidade, dessa forma,
    Se o vento soprar forte demais, ameaçando envolvê-lo, tranque portas e janelas.
    Proteja-se.
    Se o sol aquecer demais sua pele, provocando a sensualidade, ligue o ar refrigerado.
    Acalme-se.
    Se a chuva ameaçar inundar seu corpo, retirando os pés do solo firme, não saia de casa.
    Salve-se.
    Se uma súbita paixão tentar invadir todo o seu ser pacificado, fuja para o Alasca fique frio mantenha distância prudente respire fundo deixe a febre passar isole-se esconda-se contenha-se
    Livre-se.
    Ter controle total sobre si mesmo é importante para manter-se intacto intocado íntegro decente. Fantástico sujeito respeitável.
    Além disso,
é preciso ter consciência do próprio valor, agir racionalmente, não perder tempo com tolices.
É preciso ser um homem sério.
    Saiu logo cedo desceu a escada de três em três atravessou a rua correndo na pressa de perder o táxi o horário de trabalho pontualidade é fundamental e foi assim que
    morreu atropelado
    morreu atropelado por uma mulher inconveniente morreu instantaneamente e talvez
    talvez não fosse o momento adequado nem o modo certo talvez chegar atrasado não fosse correto talvez atravessar a rua sem olhar para os lados não fosse uma atitude convencional
     é bem possível!  Apesar disso
    a bem da verdade parecia orgulhoso de si mesmo. Trazia estampada no rosto uma expressão  compenetrada, séria. Um morto íntegro e respeitável, então
    Do outro lado da rua um mendigo sujo e completamente embriagado retirou, de um trabalho de macumba, uma rosa vermelha que colocou entre os dentes imaculados do cadáver.
    Mas, não...Não, ninguém riu.
 A morte também é bastante respeitável.

9.12.11

Nem tudo o que brilha é joia



Rosa Maria Ferrão
Já reparou como a grande maioria de nós se deixa ofuscar pelo brilho das joias?
Pois é, entretanto o seu valor não é agregado ao objeto, isto é, uma joia, ou melhor, os materiais de que é feita não têm valor por si sós. Tanto é assim, que, quando o homem europeu pisou o rico solo do Brasil encontrou a melhor disposição dos nativos para entregar-lhes ouro e pedrarias, sem que soubessem bem o porquê do interesse, pois aquilo nada lhes dizia.
Também assim é com nossas vidas: atribuímos determinado valor a dezenas de coisas e depois passamos a agir como se elas tivessem intrinsecamente esse valor.
A importância dada ao poder, por exemplo. Cometem-se os maiores desatinos para alcançar uma posição de destaque social. Trapacear, mentir, roubar, trair, tudo é válido para se alcançar essa jóia do orgulho e da presunção.
Alcançado o objetivo, o indivíduo se sente um verdadeiro sol. Os outros passam a ser vistos como simples planetas que orbitam ao seu redor, dependentes de sua luz e calor, para sobreviverem. E esta situação os satisfaz, durante algum tempo.
Ocorre, porém, que os outros também anseiam por seu próprio brilho e, assim, esse astro-rei vive sob constante ameaça. Lutando, dia após dia, para manter o que conseguiu, esgota-se, física, psicológica e moralmente.
Cada um é visto como um usurpador em potencial de sua posição, dessa forma, desconfiança e falsidade instalam-se em suas relações, isolando-o do afeto verdadeiro.
Há os que valorizam soberanamente o dinheiro, móvel único de suas vidas, cujo objetivo é a riqueza. Para tanto, corrompem-se, prostituem-se, atropelam a lei e a ética e, mesmo quando isso não ocorre, destroem a saúde em detrimento da própria harmonia.
Para o usurário, no entanto, esse objetivo nunca é alcançado. Quanto mais dinheiro consegue, mais precisa ter. Qualquer prejuízo, por pequeno que seja, é um duro golpe a provocar desequilíbrio e ansiedade crescentes. Um círculo vicioso se instala e o indivíduo fica preso em sua própria armadilha.
Fortuna atrai parasitas como o mel às moscas, conforme é de conhecimento geral. Os poucos amigos sinceros, tendo que conviver com esse tipo de gente, acabam por afastar-se.
Assim, cercado por bajuladores interesseiros, caçadoras de dinheiro e escroques de todo tipo, o milionário padece, mesmo sem se dar conta, de profunda solidão.
Outra porta muito atraente é a que oferece glória, destaque. O sucesso brilha em letreiros de néon, as revistas estampam, nas manchetes, nomes em letras garrafais.
Embriagado, o idólatra da fama sente-se poderoso, invencível, quase um deus. No entanto, como em essência não passa de uma criatura humana, tem parco domínio sobre os caminhos que é levado a percorrer.
Glória e sucesso, embora retumbantes, são, cada vez mais, passageiros. Os nomes de hoje são rapidamente substituídos, em prol da novidade. E o que parecia eterno mostra-se mutável como a visão da lua em noite chuvosa.
Assim, esquecido, o indivíduo entrega-se, muitas vezes, ao desânimo, à apatia, aos diferentes desequilíbrios de ordem psicológica.
Nem tudo o que brilha é joia!
Poder, dinheiro e fama são estradas de brilho intenso, atrativas, envolventes. É preciso cuidado e muitíssimo equilíbrio ao percorrê-las, sem tolas ilusões e com a convicção de que, acima de todas elas, paira eternamente o ser imortal que reside em nós.