22.6.12

Na floresta

Fragmento de texto de Gibran Khalil Gibran.

Um homem bastante respeitável

Saiu logo cedo. Desceu a escada de três em três degraus. Cumprimentou o porteiro do prédio e o vizinho aposentado que lia o jornal, ao sol. Colocou os óculos escuros, tomou um táxi e foi trabalhar.
    Cumpriu todas as obrigações do dia— com certo brilho— é importante que se diga e voltou para casa. Tomou banho, jantou com a família, viu tv e dormiu e saiu logo cedo e desceu as escadas e cumprimentou quem viu os óculos o táxi o trabalho a casa o banho o jantar a tv o sono e
    Há quantos anos? Calcular pra quê? Não muda nada mesmo. É assim que tem que ser. É preciso. É conveniente e convencional. Além do mais, há os fins de semana. Sempre se quebra a rotina.
    Acordou mais tarde. Tomou o café e leu o jornal. Almoçou. Viu tv. Às vezes um cinema, às vezes uma dormida depois do almoço, às vezes uma visita à sogra, às vezes o aniversário do filhinho de alguém, às vezes,
    Também, inventar o quê? É sempre o mesmo. É assim com todo mundo. É normal. É calmo e natural. Além do mais há os encontros eventuais...
    Sempre se varia um pouco.
    Foi ao bar, depois do expediente, com os colegas. Bebeu uns chopes. E alguns outros a mais. Foi ao motel. Transou. Viu no relógio que era tarde e saiu apressado. Chegou com as desculpas que sempre se dão, sempre iguais, sempre aceitas. Deitou no escuro, tentando lembrar o nome da outra, era
    Também lembrar pra quê? Que importância isso tem? É carne. É momento. Todo mundo faz o mesmo. Ninguém se machuca. É usual, tão excitante e normal. Além do mais há a paz familiar a manter.
    Sempre se realiza um pouco.
    Poupança para as necessidades inesperadas.
    Casa própria para uma velhice segura.
    Trabalho estável para comida e conforto.
    Plano de saúde para as despesas desagradáveis.
    Seguro de vida para a garantia da família.
    Um ideal para dar sentido à existência.
    O que mais pode querer da vida um ser humano normal?
    De que mais se precisa para ser feliz?
Um dia houve sonhos e anseios. Medos e angústias. Desejos e utopias. Paixões e delírios. Dor e desconforto. Luta e crença. Riscos a correr.Tolices de juventude inexperiente.
    Fundamental é saber que
    a sociedade o tempo a idade se encarregam de conduzir o homem de volta ao rumo certo à vida regrada ao bom senso à lei e à ordem e, já que combina bem, ao progresso.
    Ó Pátria amada idolatrada salve salve.
    Harmonia. Tons e sons suaves. Não ao vermelho e ao negro ao grave e ao agudo. Equilíbrio. Razão emoções moderadas passageiras sob controle. Estabilidade. Sentimentos atitudes na dose certa na medida exata no momento adequado de modo conveniente são
    Vantagens de um homem maduro e consciente
    É imprescindível não gerar sofrimento. Principalmente a si mesmo e... aos outros? se possível...—às vezes os interesses são incompatíveis, o que se pode fazer? Viva tranquilo e em segurança a consciência em paz e sobretudo aprenda a dar o nome a isso tudo de felicidade, dessa forma,
    Se o vento soprar forte demais, ameaçando envolvê-lo, tranque portas e janelas.
    Proteja-se.
    Se o sol aquecer demais sua pele, provocando a sensualidade, ligue o ar refrigerado.
    Acalme-se.
    Se a chuva ameaçar inundar seu corpo, retirando os pés do solo firme, não saia de casa.
    Salve-se.
    Se uma súbita paixão tentar invadir todo o seu ser pacificado, fuja para o Alasca fique frio mantenha distância prudente respire fundo deixe a febre passar isole-se esconda-se contenha-se
    Livre-se.
    Ter controle total sobre si mesmo é importante para manter-se intacto intocado íntegro decente. Fantástico sujeito respeitável.
    Além disso,
é preciso ter consciência do próprio valor, agir racionalmente, não perder tempo com tolices.
É preciso ser um homem sério.
    Saiu logo cedo desceu a escada de três em três atravessou a rua correndo na pressa de perder o táxi o horário de trabalho pontualidade é fundamental e foi assim que
    morreu atropelado
    morreu atropelado por uma mulher inconveniente morreu instantaneamente e talvez
    talvez não fosse o momento adequado nem o modo certo talvez chegar atrasado não fosse correto talvez atravessar a rua sem olhar para os lados não fosse uma atitude convencional
     é bem possível!  Apesar disso
    a bem da verdade parecia orgulhoso de si mesmo. Trazia estampada no rosto uma expressão  compenetrada, séria. Um morto íntegro e respeitável, então
    Do outro lado da rua um mendigo sujo e completamente embriagado retirou, de um trabalho de macumba, uma rosa vermelha que colocou entre os dentes imaculados do cadáver.
    Mas, não...Não, ninguém riu.
 A morte também é bastante respeitável.

9.12.11

Nem tudo o que brilha é joia



Rosa Maria Ferrão
Já reparou como a grande maioria de nós se deixa ofuscar pelo brilho das joias?
Pois é, entretanto o seu valor não é agregado ao objeto, isto é, uma joia, ou melhor, os materiais de que é feita não têm valor por si sós. Tanto é assim, que, quando o homem europeu pisou o rico solo do Brasil encontrou a melhor disposição dos nativos para entregar-lhes ouro e pedrarias, sem que soubessem bem o porquê do interesse, pois aquilo nada lhes dizia.
Também assim é com nossas vidas: atribuímos determinado valor a dezenas de coisas e depois passamos a agir como se elas tivessem intrinsecamente esse valor.
A importância dada ao poder, por exemplo. Cometem-se os maiores desatinos para alcançar uma posição de destaque social. Trapacear, mentir, roubar, trair, tudo é válido para se alcançar essa jóia do orgulho e da presunção.
Alcançado o objetivo, o indivíduo se sente um verdadeiro sol. Os outros passam a ser vistos como simples planetas que orbitam ao seu redor, dependentes de sua luz e calor, para sobreviverem. E esta situação os satisfaz, durante algum tempo.
Ocorre, porém, que os outros também anseiam por seu próprio brilho e, assim, esse astro-rei vive sob constante ameaça. Lutando, dia após dia, para manter o que conseguiu, esgota-se, física, psicológica e moralmente.
Cada um é visto como um usurpador em potencial de sua posição, dessa forma, desconfiança e falsidade instalam-se em suas relações, isolando-o do afeto verdadeiro.
Há os que valorizam soberanamente o dinheiro, móvel único de suas vidas, cujo objetivo é a riqueza. Para tanto, corrompem-se, prostituem-se, atropelam a lei e a ética e, mesmo quando isso não ocorre, destroem a saúde em detrimento da própria harmonia.
Para o usurário, no entanto, esse objetivo nunca é alcançado. Quanto mais dinheiro consegue, mais precisa ter. Qualquer prejuízo, por pequeno que seja, é um duro golpe a provocar desequilíbrio e ansiedade crescentes. Um círculo vicioso se instala e o indivíduo fica preso em sua própria armadilha.
Fortuna atrai parasitas como o mel às moscas, conforme é de conhecimento geral. Os poucos amigos sinceros, tendo que conviver com esse tipo de gente, acabam por afastar-se.
Assim, cercado por bajuladores interesseiros, caçadoras de dinheiro e escroques de todo tipo, o milionário padece, mesmo sem se dar conta, de profunda solidão.
Outra porta muito atraente é a que oferece glória, destaque. O sucesso brilha em letreiros de néon, as revistas estampam, nas manchetes, nomes em letras garrafais.
Embriagado, o idólatra da fama sente-se poderoso, invencível, quase um deus. No entanto, como em essência não passa de uma criatura humana, tem parco domínio sobre os caminhos que é levado a percorrer.
Glória e sucesso, embora retumbantes, são, cada vez mais, passageiros. Os nomes de hoje são rapidamente substituídos, em prol da novidade. E o que parecia eterno mostra-se mutável como a visão da lua em noite chuvosa.
Assim, esquecido, o indivíduo entrega-se, muitas vezes, ao desânimo, à apatia, aos diferentes desequilíbrios de ordem psicológica.
Nem tudo o que brilha é joia!
Poder, dinheiro e fama são estradas de brilho intenso, atrativas, envolventes. É preciso cuidado e muitíssimo equilíbrio ao percorrê-las, sem tolas ilusões e com a convicção de que, acima de todas elas, paira eternamente o ser imortal que reside em nós.

29.6.11

A onda


Este mundo é impermanente. É como e reflexo da lua na água. Todas as nossas realizações serão devastadas pelos ventos da mudança. (Buda)
Bem-aventurados os misericordiosos. Porque eles alcançarão misericórdia. (Jesus Cristo)

Tristes tempos os nossos, em que o individualismo exacerbado impera como regra amplamente difundida e aceita.
Vidas reduzidas a minúsculas caixas, – pequeninas zonas de conforto.
Projetos existenciais reduzidos aos interesses próprios e aos da família imediata.
A superficialidade das conversas que ocupam as relações sociais e o nosso dia-a-dia comprova a miopia existencial que impera.
“O meu carro ‘zero’!
O plano de saúde ‘top’ da minha família”.
“O meu salário e a minha renda.
O apartamento maior para onde em breve pretendo me mudar.”
“O roteiro de férias da minha família!
Quer ver as fotos dos meus filhos, em Orlando, com Mickey e Pateta?”
“O meu iPad 2, de última geração! Não que o outro, que havia comprado há pouco, fosse ruim, mas lançaram este e tenho que ostentar.”
“O meu tempo livre:
Big Brother, Faustão, passeio no shopping, futebol e novela...”
A Onda
E vem a onda gigantesca sacudir as nossas rasas convicções e remeter os olhos dos que queiram enxergar para as coisas que realmente importam.
Diante das forças imponderáveis da existência, até mesmo o monte Fuji vê sua opulência perdida.
Era para ser mais um dia de rotina e afazeres, como outro qualquer, não fosse a grande onda. Um breve instante, e tantos planos, projetos e existências arrasados.
Viver é dançar na corda oscilante do inesperado.
Não convém depositar a nossa confiança nos bens materiais, nos dias e nas horas.
Os bens materiais não resistem às tempestades e intempéries da vida. Não convém depositar neles a nossa confiança.
Impermanência, – outro nome para a vida terrena.
Bairros inteiros varridos num piscar de olhos.
Lista contendo os nomes dos milhares de vítimas.
Para os que partiram não haverá mais outonos ou primaveras, feriados ou provas na escola, manhãs de domingo ou noites estreladas.
A vida é como uma rosa que nos inebria com o seu perfume e nos dilacera com os seus espinhos.
Sabedoria é empreender a travessia pelo árido deserto da existência, rumo ao oásis verdejante da essência...
E de frente para o mar, absorta em pensamentos, ela pondera:... “A vida é breve demais para que a façamos pequena.”
Ao afirmar: “ Eu estou desperto”, Cristo e Buda nos estenderam o convite para sair do sono, da letargia e despertar.
Ver, ouvir, sentir, amar, servir, despertar.

Texto de : um_peregrino@hotmail.com

7.5.10

Dia das mães?


Domingo, mais uma vez, como em todo ano, comemora-se o "Dia das Mães". E eu pergunto, sem ser original, mas sinceramente: Que dia das mães?
Mãe é função em tempo integral. É dia e noite. A gente é mãe, não fica mãe, não está mãe. É mãe e pronto.
Filhos são prolongamentos que não se descolam jamais, gostem ou não. O cordão é cortado na maternidade, mas fica lá. Pra sempre. Independência? A deles, né? Porque a da mãe...pode sentar e esperar. Mesmo aquelas modernosas e descoladas, vira e mexe, se deparam com essa gloriosa verdade.
Quando nasce um filho, a mãe não pariu uma criança. Ela traz a vida ao mundo, traz a possibilidade no que está por vir e essa responsabilidade, ao mesmo tempo que a torna poderosa, apavora.
Nessa aventura, como disse o Caetano, "tudo é perigoso tudo é divino e maravilhoso".

17.4.10

Máscaras no Corel Photopaint


Eita preguiça da gota serena


Tem chovido há mais de uma semana de manhã à noite. Raios devassos arrebentam-me o computador e a televisão. Os livros devorados com ânsia, esgotam-se. O gramado do jardim todo coberto de um verde úmido e saltitante, só através das janelas da sala. A chuva batendo forte no telhado... Gente! Vai dando uma leseira...uma vontade de ir pra cama, fechar os olhos e ...dormir.